Por Fábio Inocente | Blog Inocente’s — Gestão, Logística & Tecnologia
O domingo, 4 de outubro de 2026, deixou uma mensagem clara para o ambiente empresarial brasileiro: o cenário político continua sendo uma variável estratégica para quem toma decisões de negócio.
No primeiro turno da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Mas o que isso tem a ver com logística?
Praticamente tudo.
Porque logística não opera em uma bolha.
Ela depende de combustível, crédito, infraestrutura, comércio exterior, indústria, consumo, impostos, investimentos, mão de obra, tecnologia, transporte e, principalmente, previsibilidade.
E quando o ambiente político muda, o gestor de Supply Chain precisa olhar além da eleição.
O primeiro impacto aparece onde menos se espera: no planejamento
Uma operação logística eficiente precisa trabalhar com horizontes de médio e longo prazo.
Um gerente precisa decidir hoje:
- quanto estoque manter;
- quais contratos renovar;
- quais transportadoras homologar;
- onde abrir um novo CD;
- quanto investir em tecnologia;
- quais equipamentos adquirir;
- como dimensionar a frota;
- quais fornecedores desenvolver;
- como estruturar o S&OP;
- e qual nível de serviço oferecer ao cliente.
Todas essas decisões dependem de uma variável fundamental:
previsibilidade.
E é justamente nesse ponto que o cenário eleitoral ganha relevância.
A reação inicial dos mercados ao resultado do primeiro turno foi bastante forte. O Ibovespa atingiu níveis recordes e o dólar caiu abaixo de R$ 5, refletindo expectativas dos investidores sobre o cenário político e econômico.
Para a logística, entretanto, não basta comemorar ou preocupar-se com a cotação de um único dia.
O verdadeiro desafio é entender o que poderá acontecer nos próximos meses.
CÂMBIO, COMBUSTÍVEL E TRANSPORTE: UMA EQUAÇÃO SENSÍVEL
Grande parte da cadeia logística brasileira possui alguma exposição direta ou indireta ao câmbio.
Equipamentos, peças, sistemas, componentes eletrônicos, pneus, veículos, tecnologia, combustíveis e diversos insumos podem sofrer influência das condições econômicas internacionais.
Uma alteração cambial pode mudar custos de aquisição.
E custo de aquisição influencia:
estoque → transporte → armazenagem → preço → margem → competitividade.
É por isso que o profissional de Supply Chain não pode olhar apenas para o frete.
Ele precisa compreender a cadeia completa.
INFRAESTRUTURA: A ELEIÇÃO TAMBÉM PASSA PELAS RODOVIAS
O Brasil continua dependendo fortemente do transporte rodoviário.
Por isso, decisões governamentais relacionadas a:
- concessões;
- rodovias;
- ferrovias;
- portos;
- aeroportos;
- hidrovias;
- energia;
- infraestrutura digital;
podem modificar completamente a estratégia logística de uma empresa.
Uma nova rodovia pode mudar o desenho de uma malha.
Uma concessão pode alterar custos.
Um novo terminal pode reduzir lead time.
Uma ferrovia pode mudar a matriz de transporte.
Um investimento em infraestrutura pode transformar uma região inteira em um novo polo logístico.
Para o Supply Chain, política pública também é variável operacional.
E O CONSUMIDOR?
Existe outro ponto que merece atenção.
O resultado eleitoral também acontece em um país onde empresas precisam lidar com consumo, crédito, endividamento, inflação e confiança empresarial.
Se o consumo cresce, a logística precisa responder.
Mais pedidos significam:
mais estoque → mais separação → mais expedição → mais transporte → mais entregas.
Se o consumo desacelera, ocorre o movimento contrário.
O desafio passa a ser reduzir estoque, melhorar produtividade, rever contratos e proteger margem.
É justamente aí que entram conceitos como S&OP, Forecast, IBP, WMS, TMS, Lean, automação e analytics.
O NOVO CEO DA LOGÍSTICA É O DADO
Independentemente de quem vencer o segundo turno, uma conclusão permanece:
as empresas não podem construir suas estratégias logísticas baseadas em torcida.
O gestor precisa trabalhar com cenários.
Cenário otimista.
Cenário conservador.
Cenário de crescimento.
Cenário de retração.
Cenário de alta cambial.
Cenário de aumento de custos.
Cenário de expansão.
E, principalmente:
plano de contingência.
Essa é uma das maiores transformações da logística moderna.
O profissional deixou de ser apenas aquele que movimenta produtos.
Hoje, ele precisa compreender economia, tecnologia, comportamento do consumidor, riscos, geopolítica e estratégia empresarial.
O QUE O GESTOR DE LOGÍSTICA DEVE FAZER AGORA?
A resposta não é esperar o resultado definitivo.
É preparar a operação.
1. Revisar custos
Reavaliar transporte, armazenagem, mão de obra, contratos e produtividade.
2. Revisar contratos
Identificar contratos vulneráveis a inflação, câmbio, combustível e reajustes.
3. Trabalhar com cenários
Criar projeções para diferentes ambientes econômicos.
4. Proteger o caixa
Estoque excessivo também é dinheiro parado.
5. Aumentar produtividade
Automação, WMS, TMS, IA e analytics deixam de ser diferenciais e passam a ser ferramentas de competitividade.
6. Revisar a malha logística
Talvez o desenho que funcionava há dois anos não seja mais o melhor para os próximos dois.
7. Aproximar Logística e Finanças
O Supply Chain precisa falar a linguagem do CFO.
Custo, margem, capital empregado, giro, EBITDA e retorno sobre investimento também fazem parte da logística.
A GRANDE LIÇÃO DO DOMINGO
Existe uma diferença enorme entre reagir ao cenário e estar preparado para ele.
O resultado das urnas pode mudar governos.
Governos podem mudar políticas.
Políticas podem alterar o ambiente econômico.
E o ambiente econômico pode mudar a cadeia de suprimentos.
Por isso, o profissional de logística que pensa estrategicamente não pergunta apenas:
“Quem ganhou a eleição?”
Ele pergunta:
“O que esse novo cenário pode significar para minha operação, meus custos, meus clientes, meus fornecedores e minha estratégia de Supply Chain?”
Essa é a diferença entre administrar uma operação e gerenciar estrategicamente uma cadeia de suprimentos.
CONCLUSÃO
A eleição de 2026 ainda não terminou. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Mas uma coisa já está definida:
o Brasil entrou novamente em um período de decisões.
E enquanto políticos discutem projetos para o país, empresas precisam discutir projetos para sobreviver e crescer.
Na logística, isso significa olhar para frente.
Planejar.
Simular.
Medir.
Digitalizar.
Reduzir desperdícios.
Proteger margens.
E preparar a operação para aquilo que ainda não aconteceu.
Porque Supply Chain de alta performance não tenta adivinhar o futuro.
Ele se prepara para diferentes futuros.
💬 E você, profissional de Logística e Supply Chain?
A sua empresa já está preparada para os possíveis cenários econômicos que podem surgir depois das eleições?
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