Na parede de uma sala silenciosa, vivia um relógio chamado Augusto.
Pontual. Preciso. Respeitado.
Todos confiavam nele. Organizavam vidas, compromissos e expectativas a partir de seus ponteiros. Mas Augusto sentia algo estranho: quanto mais avançava, mais as pessoas pareciam cansadas.
Sempre correndo. Sempre atrasadas. Mesmo quando chegavam cedo.
Certo dia, Augusto fez algo imperdoável para um relógio:
atrasou um segundo.
Ninguém percebeu.
No dia seguinte, atrasou dois. Depois cinco. Depois minutos.
Curiosamente, a sala mudou. As conversas duraram mais. Os silêncios deixaram de incomodar. As pessoas respiravam fundo sem culpa.
Augusto percebeu então que o tempo não estava errado.
A relação com ele é que estava.
Nunca parou completamente. Não queria o caos.
Queria espaço.
E assim, silenciosamente, ensinou que nem todo atraso é perda. Às vezes, é respiro. Às vezes, é humanidade tentando alcançar o próprio ritmo.

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