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domingo, 21 de junho de 2026

Capítulo Inédito – A Casa dos Três Viúvos, Um episódio imaginário após os acontecimentos de Dom Casmurro

 


Este é um texto original, inspirado nos personagens e no universo criado por Machado de Assis.


Já disse, e repito, que as casas envelhecem como as pessoas. Algumas perdem o brilho; outras, a memória. Há, porém, certas residências que ganham alma com os anos, e foi justamente uma dessas que conheci já na maturidade.

Chamavam-na de Casa dos Três Viúvos.

O nome, à primeira vista, parecia um erro de gramática, pois nela moravam apenas duas pessoas: uma senhora de cabelos brancos e um velho médico reformado. O terceiro viúvo ainda não chegara, mas o destino, que gosta de preparar suas ironias com antecedência, já lhe havia reservado um quarto.

A senhora era ninguém menos que Dona Glória, minha mãe.

Depois da morte de meu pai, e mais tarde de tantos conhecidos, ela se tornara uma criatura silenciosa. Não triste; apenas habitante de um mundo em que os mortos ocupavam mais espaço que os vivos.

Por recomendação médica, deixou a antiga casa de Mata-Cavalos e passou uma temporada naquela residência, acompanhada do doutor Jerônimo Valadares, homem viúvo havia quinze anos.

O doutor tinha um hábito curioso.

Todas as noites punha três cadeiras na varanda.

Uma para si.

Outra para Dona Glória.

A terceira permanecia vazia.

Certa vez, minha mãe perguntou:

— Espera alguém, doutor?

Ele respondeu:

— Sim. Minha falecida esposa nunca se atrasava para o café.

Minha mãe não riu.

Ao contrário, pareceu compreender perfeitamente.

No dia seguinte, pediu que se colocasse uma quarta cadeira.

O doutor estranhou.

— E esta?

— Para meu marido — respondeu ela, com a serenidade de quem fala de alguém que saiu para uma caminhada e logo voltará.

A partir daquela noite, os dois passaram a tomar café na varanda diante de duas cadeiras vazias.

Era uma cena tão singular que os criados começaram a comentar:

— A casa é habitada por quatro pessoas, mas apenas duas pagam as despesas.


O Terceiro Viúvo

Foi então que apareceu o terceiro personagem desta história.

Chamava-se Aureliano Furtado, um relojoeiro aposentado, magro, de olhos vivos e bigodes cuidadosamente aparados.

Chegara ao bairro recentemente, trazendo apenas uma mala e um relógio de bolso.

Também era viúvo.

Ao saber disso, o doutor Valadares convidou-o para uma visita.

Aureliano entrou na casa, viu as quatro cadeiras na varanda e disse:

— Vejo que não sou o único que ainda recebe visitas do passado.

Na mesma noite, pediu uma quinta cadeira.

— E esta? — perguntou Dona Glória.

— Para minha esposa. Ela detestaria ser esquecida.

Desde então, todas as tardes havia cinco cadeiras na varanda.

Três ocupadas pela ausência.


O Clube dos Viúvos

Não demorou para que os três criassem uma espécie de confraria.

Reuniam-se após o jantar e contavam histórias de seus falecidos.

O doutor falava das viagens que nunca fizera.

Aureliano recordava as serenatas.

Dona Glória, às vezes, mencionava meu pai e, em outras, falava de mim quando menino.

Mas uma coisa extraordinária aconteceu.

Com o passar das semanas, deixaram de falar apenas dos mortos.

Passaram a rir.

Rir de lembranças, de erros, de pequenas trapalhadas.

Uma noite, o doutor derrubou o café sobre a mesa e exclamou:

— Minha mulher diria que continuo desastrado.

Aureliano respondeu:

— A minha diria que o senhor finalmente aprendeu a fazer café.

Pela primeira vez em muito tempo, ouvi dizer que Dona Glória gargalhou.

Gargalhou de verdade.

Os criados ficaram espantados.

Uma das empregadas afirmou:

— Parece até que os mortos estão ficando mais alegres.


O Mistério do Quarto Azul

Havia, entretanto, um aposento fechado.

O chamado Quarto Azul.

Ninguém entrava ali.

Dona Glória, curiosa, perguntou o motivo.

Aureliano explicou:

— Guardo ali tudo o que me lembra minha esposa.

Cartas, retratos, vestidos.

— E por que a porta permanece trancada?

— Porque algumas saudades precisam descansar.

Essas palavras impressionaram profundamente minha mãe.

Naquela noite, ela pediu uma chave ao caseiro e entrou sozinha no quarto.

Permaneceu ali por quase uma hora.

Quando saiu, tinha os olhos úmidos, mas o semblante leve.

O doutor perguntou:

— O que encontrou?

Ela respondeu:

— Descobri que a memória é como uma janela. Quando a fechamos por muito tempo, o ar da vida deixa de entrar.

No dia seguinte, mandou abrir todas as janelas da casa.


O Nome da Casa

Foi justamente nessa ocasião que nasceu a famosa denominação.

Um menino da vizinhança, vendo os três sentados na varanda, perguntou:

— Quem são aqueles?

A empregada respondeu:

— São os três viúvos.

O garoto corrigiu:

— Mas ali tem uma mulher.

A criada, sem se dar conta da filosofia escondida em suas palavras, disse:

— A saudade não escolhe se a pessoa é homem ou mulher.

E o nome ficou.

Casa dos Três Viúvos.


O Último Serão

Meses depois, quando minha mãe decidiu regressar, os três se reuniram pela última vez na varanda.

As cinco cadeiras estavam em seus lugares.

O sol se punha.

Dona Glória levantou-se e disse:

— Entramos nesta casa como pessoas que haviam perdido alguém. Saímos dela lembrando que também fomos encontrados por muitas lembranças.

Aureliano ergueu a xícara.

O doutor fez o mesmo.

E os três brindaram.

Não aos mortos.

Mas àquilo que eles haviam deixado: amor suficiente para continuar ocupando uma cadeira na varanda da vida.

Quando soube dessa história, compreendi algo que só a velhice ensina:

Existem lutos que nos aprisionam.

E existem saudades que nos fazem companhia.

A Casa dos Três Viúvos era, na verdade, a morada dessas companhias invisíveis.

E talvez, se eu passasse diante dela numa tarde silenciosa, ainda encontrasse cinco cadeiras.

Duas ocupadas pelo presente.

Três, pela eternidade.




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