Blog do Fabio Jr

O blog que fala o que quer, porque nunca tem culpa de nada.

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domingo, 27 de outubro de 2013

A cigana falou

A cigana falou que é amor. O médico disse que é amor. A psicóloga falou que é amor. Até a minha tia-avó que nem lembra mais meu nome falou que é amor. Antes fosse tosse, catapora, caxumba ou qualquer coisa que valha. Mas é amor. Quando ela chega perto de mim, eu sinto tremer até o meu pâncreas. Todos os meus duzentos e seis ossos se balançam mais do que aquelas loiras bonitas que dançam por aí. Ela chega mansinha, me diz um oi-qualquer-coisa com os olhos e tudo que existe naquela pequena me aparece como um zoom: sua falha na sobrancelha esquerda, a rachadura do seu lábio sem batom, seus brincos de pedrinhas brilhantes, seu piercing na narina direita e seus olhos cor-de-mel. Quando ela se aproxima, eu penso em mudar de planeta, em salvar um gato de um incêndio bem na frente dela ou de ser agarrado por algumas loucas fanáticas que me confundiram com algum famoso. Queria que minha boca falasse – em qualquer tom – a gritaria que meu coração lhe oferece toda vez que aquela pequena se coloca a uns palmos de mim. Eu penso caralho-filho-da-puta-fala-alguma-coisa-romântica, mas só digo meia dúzia de clichês. Eu sou um babaca perto dela. Longe, também. Aí, eu digo: - Me conte do teu dia. Fala dos teus planos, do almoço vegetariano, das amigas que furaram aquele cinema das quatorze e dos caras que te cantaram pelas ruas. Deixa que eu faço o jantar e lavo a louça. Me conte tuas falhas que eu te apresento os meus remendos. Me conte teus segredos que eu te mostro meus ouvidos-baús considerados os mais seguros do mundos. Traga tuas aflições para meu colo repousante. E prepare-se para viver apertada em mim. Porque abraços são beijos dos braços. Ela me ri sem força, leve como uma bexiga de ar solta por aí. Passeia sua mão na minha e faz carinho em meu dedão como quem agradece eternamente e diz que vai ficar tudo bem. Queria levá-la ao médico para saber se ela sofre de amores por mim, também. Mas ela é tão segura que fico com medo de ser apenas uma virosezinha qualquer.


sábado, 26 de outubro de 2013

Cinzentos

Abertas estão as mais profundas crateras, onde dormem os mais sofridos tormentos. Leito sacro onde hibernam nossos demônios e criaturas. Somos nuvens novas, daquelas que não viraram ao menos garoa e anseiam por trovejar. Não somos máquinas… Somos homens. Somos o nosso próprio sanatório, poupamos os alucinógenos e nos proporcionamos instantes de loucura. E a insanidade chama nossos amores pelo nome: Saudade, dor, lamúrias, sofrimento e tristeza. Somos pedaços vivos de uma atmosfera morta. Respiramos o ar repleto de suspiros dos apaixonados enquanto banhamo-nos nas chuvas de lágrimas que evaporam e arranjam morada no céu, tal qual as almas desencarnadas. Melancolia também seca e morre… Assim como os melancólicos. Não somos máquinas, mas quem dirá que somos homens? Somos a poesia que ainda não rimou, as palavras pesadas que o vento não quer levar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

De tanto te procurar

De tando tentar te achar, acabei me perdendo. De tanto tentar descomplicar, acabei complicando ainda mais. De tanto guardar, acabei transbordando. De tanto querer, nada tive. De tanto fazer por nós, acabei fazendo sozinha. De tanto caminhar junto, acabei caminhando sozinha. De tanto pensar, nada fiz. De tanto fazer, pouco pensei. De tanto te amar, deixei de me amar. De tanto olhar pra trás, perdi o caminho á minha frente. De tanto correr, acabei caindo. De tanto cair, aprendi a levantar. De tanto sofrer, aprendi a sorrir. De tanto sorrir, aprendi a não sofrer. De tanto observar, acabei ficando de fora. De tanto sofrer com ele, acabei sofrendo por ele. De tanto fazer tanto por ele, acabei não fazendo nada por mim. De tanto pensar em como poderia ter sido, esqueci de fazer. De tanto correr da dor, acabei encontrando. De tanto ler, muito imaginei. De tanto que imaginei, nada fiz. De tanto que dancei, percebi que não sei. De tanto que não sei, aprendi que, na verdade, muito sei. De tanto ser muito, acabei sendo pouco. De tanto se cansar, parei de tentar. De tanto ter esperança, acabei não tendo nada. De tanto ajudar, não me ajudei. De tanto espernear, nada tive. De tanto jogar, acabei sendo jogada. De tanto ficar, acabei indo. De tanto cantar, acabei sem voz. De tanto escrever, pouco falei. De tanto falar, pouco escrevi. De tanto amar, esqueci que também precisava ser amada. E de tanto “tanto”, acabei nada.