Em um aquário amplo, limpo e perfeitamente previsível, vivia um peixe chamado Íris.
Ele tinha tudo o que precisava: comida no horário certo, paredes transparentes e nenhuma surpresa. Ainda assim, sentia um aperto estranho sempre que via, ao longe, o azul infinito do oceano.
Íris não temia a água.
Temia a imensidão.
O oceano era grande demais. Profundo demais. Livre demais.
— Aqui estou seguro — repetia para si mesmo, enquanto nadava em círculos conhecidos.
Até o dia em que uma fissura surgiu no vidro.
Nada dramático. Apenas uma linha fina.
Mas suficiente para deixar a água do mundo entrar.
O medo veio primeiro. Depois a curiosidade.
Íris se aproximou. Olhou além. Viu correntes, sombras, vida pulsando em ritmos que ele nunca aprendera.
E então, sem aviso, o vidro cedeu.
O oceano o engoliu.
Houve pânico. Desorientação. Silêncio interno.
Mas algo curioso aconteceu: Íris não se perdeu. O corpo lembrava o que a mente temia esquecer.
Nadou.
Não perfeitamente. Não com coragem absoluta.
Mas nadou.
E entendeu, finalmente, que o aquário nunca o protegeu — apenas o limitou. O oceano não era ameaça. Era possibilidade.
Desde então, dizem que Íris ainda sente medo.
Mas aprendeu que crescer não é perder o medo…
é não permitir que ele decida por você.

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