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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Criaturas bizarras: Caulophryne jordani









O animal não se parece em nada com um molusco típico – organismos como os caramujos, as ostras ou os mexilhões, dotados de uma concha rígida protegendo seu corpo mole, e que se movem, quando necessário, graças a um único pé cilíndrico. Mas essa criatura está nadando nas águas profundas e escuras do cânion de Monterey, ao largo da costa da Califórnia, a mais de 2,5 mil metros de profundidade – embora o verbo “nadar” não traduza bem seus movimentos etéreos e graciosos.
Por longos instantes, ficamos em silêncio na cabine de comando do Western Flyer, um avançado navio de pesquisa, com 36 metros de comprimento, do Instituto de Pesquisas do Aquário da Baía de Monterey (Monterey Bay Aquarium Research Institute, MBARI). Nessa instituição, o barbudo e encanecido Robison, que lembra o deus Netuno, reina como cientista-chefe. Depois do capitão, é ele o manda-chuva por ali. Sua palavra vale como lei – e raramente ele não tem nada a dizer. Agora, no entanto, está calado, ao lado dos outros oceanógrafos, fitando a imagem do molusco nos monitores coloridos do Flyer. A perplexidade geral ilustra o quão pouco se sabe sobre a vida nos níveis mais profundos do oceano – mesmo em águas tão próximas da costa, cerca de 100 quilômetros, quanto essas.
A imagem do animal, de uma espécie ainda sem nome, está sendo transmitida por câmeras instaladas em um robô submersível, o Tiburon, ligado ao Flyer por um cabo transmissor de dados. Equipado com um sistema especial de flutuação, o Tiburon pode enviar imagens, em tempo real, dos movimentos de qualquer animal ao navio de pesquisa. A criatura curva-se e dobra-se com a graça de uma dançarina de balé. De algum modo, sua estranha coreografia deveria indicar seus hábitos de vida, o modo como se alimenta e se reproduz. “Conseguimos capturar alguns espécimes nos últimos dois anos, mas ainda não descobrimos como usam todas as suas partes ou mesmo do que se alimentam.”
“Deve ser bem lento e burro”, sugere um dos pesquisadores. “Dá pra ver que o bicho não foi desenvolvido para ser ágil.” Robison concorda, sorrindo: “Não há a menor dúvida. Mas pelo menos sabemos que ele é um predador, como todo mundo lá embaixo. Vai ver que come ovos...” Ele tem certeza de que encontrará as respostas – talvez não dessa vez, mas em suas próximas incursões. Afinal, é apenas a oitava dessas criaturas que o cientista teve oportunidade de observar.
Sua confiança está baseada tanto na enorme biodiversidade da baía de Monterey quanto nos recursos combinados do Western Flyer e de seu robô submersível. Atuando em conjunto, os dois barcos estão proporcionando aos cientistas os primeiros vislumbres de algumas das regiões mais profundas do cânion submarino de Monterey.
Oculto sob as águas do oceano Pacífico, o desfiladeiro tem início perto do litoral da Califórnia. Ele aprofunda-se de forma gradual, se estendendo por 160 quilômetros mar adentro; em alguns pontos a profundidade da água atinge 3,8 mil metros. A rede de vales que constituem o cânion abriga uma diversidade de vida tão grande quanto uma floresta tropical. Estrelas-do-mar, anêmonas e corais encrustam as plataformas superiores dos precipícios. Peixes, crustáceos, águas-vivas, lulas e polvos navegam por suas águas escuras. Amontoados de mariscos, pogonóforos e bactérias diversas vivem em suas águas frias.
Nos últimos quatro anos, Robison e sua equipe realizaram nove expedições às regiões mais profundas do desfiladeiro – uma zona de águas gélidas nunca alcançada pela luz do sol, um mundo caracterizado pela escassez de oxigênio e enormes pressões –, encontrando novos animais e decifrando seu comportamento. “Embora as profundezas dos oceanos sejam o maior hábitat de nosso planeta, ainda hoje é o menos explorado. Somos como aqueles aventureiros do século 19, percorrendo um mundo jamais visitado”, comenta Robison, por fim, desviando o olhar do misterioso molusco na tela do monitor.


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