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domingo, 11 de janeiro de 2026

Contos Inusitados do Cotidiano: Capítulo 2 — A Galinha que Correu Mais Rápido que o Destino

 

Na estrada estreita onde quase ninguém prestava atenção, uma galinha pilotava uma motocicleta vermelha.

Usava capacete.

Não por medo.

Mas por consciência.

Seu nome era Aurora — embora poucos soubessem. No galinheiro, sempre fora considerada estranha demais: curiosa demais, inquieta demais, viva demais. Enquanto as outras aceitavam o chão cercado, Aurora observava o horizonte e sentia que havia algo errado em nascer com asas e nunca usá-las.

Ela não queria voar.

Queria ir.

A motocicleta surgiu por acaso — abandonada, enferrujada, esquecida como tantos sonhos. Aurora aprendeu sozinha. Caiu. Levantou. Ajustou o equilíbrio. Descobriu que liberdade não exige perfeição, apenas coragem suficiente para começar.

Naquele dia, a estrada parecia longa demais e o vento forte demais. Atrás dela, um carro branco se aproximava. Silencioso no início. Ameaçador depois. No capô, letras vermelhas gritavam aquilo que Aurora sempre soubera, mas nunca aceitara como sentença.

Ela acelerou.

Não fugia do carro.

Fugia da ideia de que seu destino já estava escrito.

A paisagem se borrava, o coração batia no ritmo do motor e, pela primeira vez, Aurora entendeu: o medo não estava em ser alcançada, mas em nunca ter tentado escapar.

Curiosamente, quanto mais ela seguia em frente, mais distante o carro parecia ficar. Não porque diminuiu a velocidade — mas porque Aurora havia feito algo raro: escolheu viver fora do roteiro.

Quando a estrada terminou, ela parou. Respirou. Tirou o capacete. O mundo estava intacto.

Aurora não sabia o que viria depois.

Mas sabia algo essencial:

nem todo destino que nos persegue é rápido o suficiente para alcançar quem decide ir além.

E assim, dizem que ainda hoje, em estradas onde o improvável acontece, uma galinha de capacete passa acelerando — lembrando ao mundo que a liberdade começa no momento em que você não aceita ser apenas o que esperam de você.

Sobre a série

Contos Inusitados do Cotidiano é uma coletânea de histórias curtas que usam o absurdo como espelho da realidade.

Animais que pensam. Objetos que ensinam. Situações improváveis que revelam verdades profundas.

Não são fábulas.

São alertas suaves.




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