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domingo, 4 de janeiro de 2026

Contos Inusitados do Cotidiano: Capítulo 1 — O Galo que Meditava


Há quintais onde o tempo corre.

E há quintais onde o tempo observa.

Foi em um desses lugares, escondido entre sombras de madeira antiga e o cheiro morno de grãos espalhados pelo chão, que viveu um galo diferente. Enquanto os outros disputavam espaço, cantavam alto e brigavam por autoridade, ele se sentava em silêncio dentro de uma velha tigela de barro.

Chamavam-no de Sereno.

Sereno não cantava ao amanhecer.

Ele respirava.

Com os olhos fechados e o corpo ereto, pousava sobre o arroz cru como se aquele fosse seu altar. Suas asas descansavam em gestos precisos, desenhando no ar sinais que ninguém compreendia — mas que todos sentiam.

Quando Sereno meditava, algo mudava no ambiente.

O vento desacelerava.

As galinhas paravam de ciscar por um instante.

Até o cachorro da casa, sempre inquieto, se deitava em silêncio, rendido por uma paz sem nome.

No início, houve risos.

— Galo que não canta não governa o terreiro — zombavam.

Mas Sereno não precisava governar. Ele sustentava.

Aprendera observando o mundo:

O arroz lhe ensinara paciência — pois só floresce quando encontra a água certa.

Os grãos espalhados lhe ensinaram desapego — nem tudo que cai está perdido.

E o silêncio, ah… o silêncio lhe ensinou tudo o que o barulho esconde.

Certa manhã, o céu escureceu cedo demais. Uma tempestade se aproximava com vento grosso e nuvens pesadas. Os animais correram. O quintal se agitou. Sereno permaneceu.

Sentou-se em sua tigela, respirou profundamente e, pela primeira vez, cantou.

Não foi um canto alto.

Foi um canto profundo.

Não acordou o sol.

Acalmou o mundo.

A tempestade passou rápido, como se tivesse perdido o motivo de ficar.

Desde aquele dia, ninguém mais riu.

Porque entenderam, ainda que sem palavras, que liderança não está no barulho, mas na presença.

Que força pode ser quieta.

E que até um galo, sentado sobre grãos simples, pode tocar algo eterno.

Sereno ainda medita todas as manhãs.

E quem observa com atenção percebe:

a verdadeira alvorada começa por dentro.

Sobre a série

Contos Inusitados do Cotidiano é uma coleção de histórias curtas que misturam metáfora, filosofia e estranheza poética.

Personagens improváveis. Situações absurdas. Verdades silenciosas.

Cada conto é um convite à pausa.





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