Há quintais onde o tempo corre.
E há quintais onde o tempo observa.
Foi em um desses lugares, escondido entre sombras de madeira antiga e o cheiro morno de grãos espalhados pelo chão, que viveu um galo diferente. Enquanto os outros disputavam espaço, cantavam alto e brigavam por autoridade, ele se sentava em silêncio dentro de uma velha tigela de barro.
Chamavam-no de Sereno.
Sereno não cantava ao amanhecer.
Ele respirava.
Com os olhos fechados e o corpo ereto, pousava sobre o arroz cru como se aquele fosse seu altar. Suas asas descansavam em gestos precisos, desenhando no ar sinais que ninguém compreendia — mas que todos sentiam.
Quando Sereno meditava, algo mudava no ambiente.
O vento desacelerava.
As galinhas paravam de ciscar por um instante.
Até o cachorro da casa, sempre inquieto, se deitava em silêncio, rendido por uma paz sem nome.
No início, houve risos.
— Galo que não canta não governa o terreiro — zombavam.
Mas Sereno não precisava governar. Ele sustentava.
Aprendera observando o mundo:
O arroz lhe ensinara paciência — pois só floresce quando encontra a água certa.
Os grãos espalhados lhe ensinaram desapego — nem tudo que cai está perdido.
E o silêncio, ah… o silêncio lhe ensinou tudo o que o barulho esconde.
Certa manhã, o céu escureceu cedo demais. Uma tempestade se aproximava com vento grosso e nuvens pesadas. Os animais correram. O quintal se agitou. Sereno permaneceu.
Sentou-se em sua tigela, respirou profundamente e, pela primeira vez, cantou.
Não foi um canto alto.
Foi um canto profundo.
Não acordou o sol.
Acalmou o mundo.
A tempestade passou rápido, como se tivesse perdido o motivo de ficar.
Desde aquele dia, ninguém mais riu.
Porque entenderam, ainda que sem palavras, que liderança não está no barulho, mas na presença.
Que força pode ser quieta.
E que até um galo, sentado sobre grãos simples, pode tocar algo eterno.
Sereno ainda medita todas as manhãs.
E quem observa com atenção percebe:
a verdadeira alvorada começa por dentro.
Sobre a série
Contos Inusitados do Cotidiano é uma coleção de histórias curtas que misturam metáfora, filosofia e estranheza poética.
Personagens improváveis. Situações absurdas. Verdades silenciosas.
Cada conto é um convite à pausa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário