No silêncio de um dojo antigo, onde o chão rangia sob a disciplina e o ar cheirava a respeito, havia um galo vestindo um quimono branco e uma faixa preta amarrada com precisão.
Seu nome era Hibiki.
Hibiki não estava ali para vencer torneios.
Nem para provar força.
Ele treinava porque aprendera cedo que nem toda luta acontece do lado de fora.
Enquanto outros galos brigavam por território, Hibiki observava. Percebera que os maiores conflitos nasciam antes do primeiro golpe — no orgulho, na pressa, na necessidade de impor-se. Por isso, trocou o terreiro pelo tatame.
Treinava todos os dias.
Postura firme. Respiração controlada. Olhar atento.
Cada soco no ar era um diálogo interno.
Cada passo calculado era um acordo com a própria impulsividade.
Os animais riam quando souberam. — Um galo lutador? Contra quem? — zombavam.
Hibiki jamais respondeu.
Certa vez, um galo agressivo invadiu o dojo, desafiando tudo e todos. Peito estufado, voz alta, raiva solta. Aproximou-se de Hibiki esperando reação.
Hibiki apenas se posicionou.
Não atacou.
Não recuou.
Sustentou.
A firmeza era tão clara, tão inteira, que o invasor hesitou. Pela primeira vez, alguém não reagira com medo nem com ódio. Apenas presença.
O galo agressivo se afastou em silêncio.
Naquele dia, Hibiki ensinou sem palavras que a verdadeira força não está no golpe, mas no domínio. Que disciplina não serve para ferir, mas para escolher quando não ferir. E que o maior combate é vencer aquilo que em nós quer sempre lutar.
Desde então, dizem que Hibiki ainda treina no dojo vazio.
Não para se preparar para batalhas…
mas para estar em paz quando elas surgirem.
Sobre a série
Contos Inusitados do Cotidiano apresenta histórias curtas onde o absurdo revela verdades profundas.
Animais assumem papéis humanos para lembrar o humano do que ele esqueceu.
Não são fábulas morais.
São espelhos sutis.

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