Perfeito. Segue o novo conto da série, com título forte, linguagem simbólica e pronto para publicação em blog, mantendo a identidade dos anteriores.
Contos Inusitados do Cotidiano
Capítulo 4 — O Galo que Aprendeu a Surfar naquilo que Não Controla
O mar não costuma aceitar comandos.
Ele testa.
Naquele dia, as ondas se erguiam como paredes de vidro azul, e um galo equilibrava-se sobre o dorso de um golfinho, avançando exatamente para onde a água decidisse levá-los.
Seu nome era Kai.
Kai não havia escolhido o mar. O mar o escolhera. Criado em terra firme, sempre acreditara que estabilidade era sinônimo de segurança. Até o dia em que percebeu que o chão também some — apenas mais devagar.
Quando conheceu o golfinho, não houve acordo formal. Apenas confiança silenciosa. Kai subiu. O golfinho seguiu. A onda veio.
No início, Kai tentou mandar. Ajustar. Resistir.
Caiu.
Depois tentou controlar o ritmo do outro.
Caiu de novo.
Foi só quando relaxou as asas, firmou os pés e aceitou o movimento que algo mudou. O corpo deixou de lutar contra a água. A mente parou de discutir com o imprevisível.
Então, surfou.
Não era domínio.
Era parceria.
Enquanto a onda rugia, Kai abriu as asas em gesto de entrega — não de vitória. O golfinho não precisava de ordens. O mar não precisava de explicações. Tudo seguia porque seguia.
Naquele instante, Kai entendeu algo que poucos aprendem:
a vida não pede que você controle o caos, apenas que saiba se manter em pé enquanto ele passa.
A onda que parecia ameaça tornou-se caminho.
O medo virou impulso.
E o desequilíbrio, aprendizado.
Dizem que, desde então, quando o mar está agitado demais, um galo pode ser visto ao longe, equilibrado sobre um dorso cinza, lembrando a quem observa que não é a força que nos mantém de pé — é a adaptação.
Porque quem aprende a surfar o inesperado não afunda.
Atravessa.
Sobre a série
Contos Inusitados do Cotidiano é uma coleção de histórias curtas onde o absurdo serve de metáfora para verdades profundas.
Aqui, animais vivem dilemas humanos para lembrar o humano de algo essencial.
Não ensinam.
Sugerem.

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